Feiticeira da noite

Quando deixas a bruxa ir, ela parte levando um pouco de ti. Levanta sem fazer barulho e recolhe o que tocou nela, um gesto, uma memória, um fragmento de desejo, e desaparece na noite como quem conhece bem o caminho de volta para si mesma.

É curioso: a bruxa sempre vai embora. Sempre deixa para trás um pedaço de terra onde, por um instante, acreditou poder fincar os pés. Um pequeno território onde quase construiu abrigo. Quase.

Bruxas conhecem a palavra “quase” melhor do que ninguém.

Porque a natureza delas é outra.

Bruxas são solitárias e suficientes. Caminham sem escolta, atravessam o mundo com o próprio fogo nas mãos.

Talvez por isso despertem tantos questionamentos em quem as encontra: a fuga daquilo que poderia ter sido, o eco das palavras que nunca chegaram a ser ditas, o silêncio pesado das possibilidades abandonadas.

Mas existe uma beleza nisso.

A bruxa solitária atrai como chama em noite escura. Encanta, perturba, provoca. Só que nunca foi mulher feita para ficar. Nunca foi.

Mulher cigana.
Feiticeira da noite.

Lábios vermelhos, cabelos negros, passos que não pertencem a lugar algum.

Solitária.
Bandida para alguns.
Sórdida para outros.
Livre demais para quem tentou transformá-la em casa.

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