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Você me vê?

Apesar de tudo o que passou, você consegue enxergar o que eu sou? O que resta em mim? Quando me olha, vê apenas a marca da dor ou um brilho que insiste em ficar? Você sabe o tamanho das batalhas que eu carreguei nos ombros? Como a carta da Morte, eu encarei o fim de frente para poder renascer. Lutei guerras abertas, mas também senti o frio do punhal de quem me feriu pelas costas. Você enxerga? Se enxerga, fico em paz. Se não, não farei esforço algum para te provar nada. Porque, pela primeira vez, eu me vejo. Agora que eu me enxergo, recuso cada mentira que os outros contaram sobre mim. Eu não sou mais aquela pessoa que a língua alheia tentou criar.

Bicho de pele fria

 Houve um tempo em que me vi em cacos, e o vazio desses pedaços destruiu meus sonhos mais caros.  Eu me rasguei tentando ser inteira. Hoje, ainda tateio as cicatrizes, mas entendo o mistério que carrego: sou bicho de pele fria e alma cíclica. A cobra se desfaz de si mesma para continuar viva, morde para se defender e sangra para crescer. O que parecia destruição era, na verdade, o meu processo de cura. (Muito orgulho de ser Angorô)

Sordidez

 Não, Cazuza... Hoje eu não acordei com medo, mas eu chorei sem reclamar por abrigo. Entendi que o peso que eu carregava era o esforço de tentar caber onde não tinha espaço. A "preguiça" era, na verdade, a exaustão de ouvir o que diziam de mim, então acabei me perdendo enquanto me ajustava a um mundo imaginário. Fui espremida por mim mesma e aceitei ser diminuída para fazer parte de algo. Confiei em quem era desprezível e busquei acolhimento em lugares tortos. O sentimento ruim que sobrou em mim, fica do lado de fora. O problema sempre foi a sordidez  alheia que ainda se espalha e escorre como veneno. Eu sou o que sou. A sujeira está no mundo que vocês, porcos, construíram. [Desabafo sobre um diagnóstico tardio]

Frescor suave

Abro as janelas de dentro, aquelas que a poeira do hábito insistia em manter emperradas, e deixo que o ar renovado leve consigo o peso que não me pertence mais. Há um rastro de ontem que se arrasta como sombra em dia de sol a pino, mas percebi que carregar o que já se foi é como tentar guardar o vento em frascos de vidro: um esforço inútil que só serve para ferir os próprios punhos. O passado é um mestre generoso, mas um carcereiro cruel; então entrego ao tempo o que é do tempo, desamarro os nós que eu mesma apertei e observo as cordas caírem sem pressa, transformando o cárcere em frescor suave.

Intensidade não é sinônimo de verdade

 Somos viciados em sofrimento porque a paz não entrega recompensa imediata. A paz é silenciosa, estável, quase invisível, e isso não excita uma mente acostumada a picos. O sofrimento, não. Ele pulsa, dá a sensação de movimento, mesmo quando estamos presos no mesmo lugar. Quando tudo começa a se alinhar, algo em nós tensiona. Procuramos problemas onde não há, interpretamos demais, porque ainda não aprendemos a sustentar o que é calmo sem transformar isso em tédio. Viramos a chave quando entendemos que intensidade não é sinônimo de verdade.

O Medo

 O medo é o sinal de algo novo ocupando o espaço, uma fronteira que se apresenta sem manual de instrução. Agir com coragem é caminhar junto do batimento acelerado, aceitando que o desconhecido é o único lugar onde a vida pode, de fato, se expandir. O mistério do amanhã exige o respeito do nosso receio, e esse mesmo receio é o que valida a importância do avanço interior.

Feiticeira da noite

Quando deixas a bruxa ir, ela parte levando um pouco de ti. Levanta sem fazer barulho e recolhe o que tocou nela, um gesto, uma memória, um fragmento de desejo, e desaparece na noite como quem conhece bem o caminho de volta para si mesma. É curioso: a bruxa sempre vai embora. Sempre deixa para trás um pedaço de terra onde, por um instante, acreditou poder fincar os pés. Um pequeno território onde quase construiu abrigo. Quase. Bruxas conhecem a palavra “quase” melhor do que ninguém. Porque a natureza delas é outra. Bruxas são solitárias e suficientes. Caminham sem escolta, atravessam o mundo com o próprio fogo nas mãos. Talvez por isso despertem tantos questionamentos em quem as encontra: a fuga daquilo que poderia ter sido, o eco das palavras que nunca chegaram a ser ditas, o silêncio pesado das possibilidades abandonadas. Mas existe uma beleza nisso. A bruxa solitária atrai como chama em noite escura. Encanta, perturba, provoca. Só que nunca foi mulher feita para ficar. Nunca foi. Mu...