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Mostrando postagens de abril, 2026

Você me vê?

Apesar de tudo o que passou, você consegue enxergar o que eu sou? O que resta em mim? Quando me olha, vê apenas a marca da dor ou um brilho que insiste em ficar? Você sabe o tamanho das batalhas que eu carreguei nos ombros? Como a carta da Morte, eu encarei o fim de frente para poder renascer. Lutei guerras abertas, mas também senti o frio do punhal de quem me feriu pelas costas. Você enxerga? Se enxerga, fico em paz. Se não, não farei esforço algum para te provar nada. Porque, pela primeira vez, eu me vejo. Agora que eu me enxergo, recuso cada mentira que os outros contaram sobre mim. Eu não sou mais aquela pessoa que a língua alheia tentou criar.

Bicho de pele fria

 Houve um tempo em que me vi em cacos, e o vazio desses pedaços destruiu meus sonhos mais caros.  Eu me rasguei tentando ser inteira. Hoje, ainda tateio as cicatrizes, mas entendo o mistério que carrego: sou bicho de pele fria e alma cíclica. A cobra se desfaz de si mesma para continuar viva, morde para se defender e sangra para crescer. O que parecia destruição era, na verdade, o meu processo de cura. (Muito orgulho de ser Angorô)

Sordidez

 Não, Cazuza... Hoje eu não acordei com medo, mas eu chorei sem reclamar por abrigo. Entendi que o peso que eu carregava era o esforço de tentar caber onde não tinha espaço. A "preguiça" era, na verdade, a exaustão de ouvir o que diziam de mim, então acabei me perdendo enquanto me ajustava a um mundo imaginário. Fui espremida por mim mesma e aceitei ser diminuída para fazer parte de algo. Confiei em quem era desprezível e busquei acolhimento em lugares tortos. O sentimento ruim que sobrou em mim, fica do lado de fora. O problema sempre foi a sordidez  alheia que ainda se espalha e escorre como veneno. Eu sou o que sou. A sujeira está no mundo que vocês, porcos, construíram. [Desabafo sobre um diagnóstico tardio]

Frescor suave

Abro as janelas de dentro, aquelas que a poeira do hábito insistia em manter emperradas, e deixo que o ar renovado leve consigo o peso que não me pertence mais. Há um rastro de ontem que se arrasta como sombra em dia de sol a pino, mas percebi que carregar o que já se foi é como tentar guardar o vento em frascos de vidro: um esforço inútil que só serve para ferir os próprios punhos. O passado é um mestre generoso, mas um carcereiro cruel; então entrego ao tempo o que é do tempo, desamarro os nós que eu mesma apertei e observo as cordas caírem sem pressa, transformando o cárcere em frescor suave.

Intensidade não é sinônimo de verdade

 Somos viciados em sofrimento porque a paz não entrega recompensa imediata. A paz é silenciosa, estável, quase invisível, e isso não excita uma mente acostumada a picos. O sofrimento, não. Ele pulsa, dá a sensação de movimento, mesmo quando estamos presos no mesmo lugar. Quando tudo começa a se alinhar, algo em nós tensiona. Procuramos problemas onde não há, interpretamos demais, porque ainda não aprendemos a sustentar o que é calmo sem transformar isso em tédio. Viramos a chave quando entendemos que intensidade não é sinônimo de verdade.

O Medo

 O medo é o sinal de algo novo ocupando o espaço, uma fronteira que se apresenta sem manual de instrução. Agir com coragem é caminhar junto do batimento acelerado, aceitando que o desconhecido é o único lugar onde a vida pode, de fato, se expandir. O mistério do amanhã exige o respeito do nosso receio, e esse mesmo receio é o que valida a importância do avanço interior.

Feiticeira da noite

Quando deixas a bruxa ir, ela parte levando um pouco de ti. Levanta sem fazer barulho e recolhe o que tocou nela, um gesto, uma memória, um fragmento de desejo, e desaparece na noite como quem conhece bem o caminho de volta para si mesma. É curioso: a bruxa sempre vai embora. Sempre deixa para trás um pedaço de terra onde, por um instante, acreditou poder fincar os pés. Um pequeno território onde quase construiu abrigo. Quase. Bruxas conhecem a palavra “quase” melhor do que ninguém. Porque a natureza delas é outra. Bruxas são solitárias e suficientes. Caminham sem escolta, atravessam o mundo com o próprio fogo nas mãos. Talvez por isso despertem tantos questionamentos em quem as encontra: a fuga daquilo que poderia ter sido, o eco das palavras que nunca chegaram a ser ditas, o silêncio pesado das possibilidades abandonadas. Mas existe uma beleza nisso. A bruxa solitária atrai como chama em noite escura. Encanta, perturba, provoca. Só que nunca foi mulher feita para ficar. Nunca foi. Mu...

Deixar Morrer

Não é a roupa mais bonita que vai me animar hoje. Nem as melhores palavras dariam a validação que eu pensei que precisava. Tem dias em que nada de fora encosta no que está acontecendo por dentro. Viver é isso: um processo lento de deixar morrer quem a gente foi ontem. Não tem glamour. Na verdade, cansa. De repente, tudo parece raso. Conversas, planos, promessas... O que antes importava perde o peso. Fica banal. E aí sobra o que arde. Sobra o que sangra. E sangrar não deveria ser fraqueza. Sangrar é humano. É sentir sem maquiagem, sem discurso bonito, sem tentar transformar caos em palco iluminado. Tem algo quase cruel nessa lucidez. Ela tira as camadas, arranca as distrações. Ainda assim, existe uma doçura ali, discreta e firme. A doçura de quem para de fugir de si mesma e entende que sentir profundamente ainda é estar viva.

Não é força que me falta

Aprendi a ficar de pé quando tudo em mim pedia chão. Aprendi cedo a organizar o que doía, a dar forma, nome e postura ao que ardia por dentro. Explicar sempre pareceu mais seguro do que sentir. Uso a mente como instrumento de contenção. Corto excessos, reduzo gestos, silencio impulsos. Enterro o que pulsa com elegância e lucidez, como se clareza bastasse. Funciona. Por um tempo. Depois o silêncio pesa. A dor não some, apenas aprende a caber. Caminha comigo, discreta, ocupando espaços que não toco. Quando me afasto do que sinto, chamo isso de maturidade. Cansei de dar murro em ponta de faca. Nada foi atravessado, apenas mantido à distância. Não estou fraca. Estou exausta de sustentar uma versão de mim que já saturou. Hoje não resolvo. Não interpreto. Não extraio sentido. Hoje deixo a ferida existir sem enquadramento, sem correção, sem urgência. E nesse gesto mínimo, quase imperceptível, algo começa a ceder. Não porque passou. Mas porque finalmente foi admitido.

Jardins

 Ela destruiu o próprio jardim e levou flores até ele. Não por obrigação, não por expectativa. Só porque cresceu e queria compartilhar o que aprendeu. Esperava atenção, cuidado, talvez um reflexo da própria coragem. Olhou pra si mesma e percebeu o vazio que ainda carregava. Nem tudo pode ser compartilhado. Algumas sementes só crescem em quem as planta. O que sufocava foi cortado. A luz entrou onde antes havia sombra. Raízes se firmaram após o temporal, firmes na própria força, sem esperar aplausos. Restaram reflexões silenciosas. Palavras não ditas. Partes de si que apodreceram antes de serem vistas. Caminha, entendendo que cada consequência nasce do que decidiu cultivar. Crescer sozinho também é sobreviver. Ele olhou pra própria vida e encontrou um quintal ralo. Talvez admirasse o jardim de longe, talvez sentisse algo que não sabia nomear. Nunca quis assumir a responsabilidade de cuidar. O jardim não floresceu pra ser notado. Floresceu porque precisava existir...

Reféns do amanhã

A ansiedade pelo futuro nos torna reféns do amanhã. Não do que existe, mas do que inventamos para suportar o vazio. Vivemos eternamente entorpecidos pela ideia de que amanhã tudo vai passar. Que algo vai se resolver. Que a dor vai cansar antes de nós. Essa é a distopia do milagre. Um mundo onde ninguém age, só aguarda. Onde a esperança não salva, apenas adia. E o tempo observa, impassível. Enquanto esperamos, a vida acontece. O agora cobra caro de quem o abandona. No fim, não é o futuro que nos prende. É a recusa de encarar o presente.

Preço

Nem tudo que se oferece é gesto. Às vezes é tentativa de acesso. Há quem confunda proximidade com troca, e ache que certas portas se abrem com vantagens discretas, favores bem colocados e gentilezas calculadas, mas há espaços que não respondem a esse tipo de chave. Algumas presenças não se movem por oferta. Não se inclinam por conveniência. Não se mantêm por interesse disfarçado de cuidado. Quando algo vem com expectativa embutida, deixa de ser simples. E o que nasce condicionado nunca chega a ser vínculo, apenas intenção esperando retorno. Aprendi a reconhecer a diferença entre aproximação e investimento. Entre estar junto e querer usufruir. Nem todo gesto é inocente, nem toda atenção é gratuita e nem toda resposta será concedida. Há coisas que só existem quando não precisam ser compradas. E há quem jamais entenda isso.

Nada floresce no excesso

Houve um tempo de pausa. Não vazio, apenas contido, um recuo silencioso em que tudo se reorganizava por dentro, longe do barulho e longe das pressas do mundo. Foi nesse silêncio que eu me refiz. Sem ruptura e sem anúncio. O que pesava se dissipou devagar. O que era essencial permaneceu, ganhando espaço, respirando comigo, pedindo apenas cuidado e atenção. O antúrio também seguiu seu ritmo. Passou pelo tempo sem cor, sem jamais perder presença. E quando voltou a ruborizar, não precisou anunciar nada. Apenas se mostrou pronto, com delicadeza, inteiro no próprio tempo. Hoje me reconheço nesse mesmo gesto. Volto mais inteira, mais serena, com menos urgência e mais presença. A cor não retorna para ser vista; retorna quando há base, quando há profundidade. O resto, naturalmente, deixa de importar.

Rei De Espadas

 Eu sei quando acontece. O corpo sente antes da cabeça. Uma luz antiga atravessa por dentro, silenciosa e precisa. Não avisa. Não erra. É um calor fino e cirúrgico, impossível fingir que não deixou marca. Ele aparece primeiro, quando o Sol ainda não é dia. Não traz conforto. Como um Rei de Espadas, frio e atento, invade pelas brechas, encontra o que eu pensei ter selado, acende tudo por um segundo perigoso. Ainda arde porque me quebrou no ponto certo. Porque me virou do avesso e gostou. Sob essa luz eu fiquei inteira, exposta e sem álibi. Arde porque me atravessou de um jeito que eu não vi chegar, não consegui evitar, e que eu não vou permitir de novo. Deixa a marca, deixa a dúvida, deixa o silêncio cortando como lâmina. Mas sei: ele volta. Sempre volta.

Ouroboros

Eu sou a serpente que dança no movimento contínuo. Não corro atrás do tempo, eu caminho com ele. Quando algo muda, eu mudo junto. Quando fecha, eu contorno. Nada em mim é fixo demais. Troco de pele sem drama, deixo o que pesa, sigo mais leve. O que pra muitos parece instabilidade, pra mim é domínio do fluxo. Eu sei subir e sei descer. Se hoje estou recolhida, é preparo. Se amanhã avanço, é porque chegou a hora. Não me prendo ao que foi. Transformo fim em passagem, queda em curva, silêncio em força. Quem tenta me deter perde energia. Quem entende meu ritmo aprende a caminhar comigo.