Não é força que me falta

Aprendi a ficar de pé quando tudo em mim pedia chão.
Aprendi cedo a organizar o que doía, a dar forma, nome e postura ao que ardia por dentro.
Explicar sempre pareceu mais seguro do que sentir.

Uso a mente como instrumento de contenção.
Corto excessos, reduzo gestos, silencio impulsos.
Enterro o que pulsa com elegância e lucidez, como se clareza bastasse.

Funciona.
Por um tempo.

Depois o silêncio pesa.
A dor não some, apenas aprende a caber.
Caminha comigo, discreta, ocupando espaços que não toco.

Quando me afasto do que sinto, chamo isso de maturidade.
Cansei de dar murro em ponta de faca.
Nada foi atravessado, apenas mantido à distância.

Não estou fraca.
Estou exausta de sustentar uma versão de mim que já saturou.
Hoje não resolvo.
Não interpreto.
Não extraio sentido.

Hoje deixo a ferida existir sem enquadramento, sem correção, sem urgência.
E nesse gesto mínimo, quase imperceptível, algo começa a ceder.
Não porque passou.
Mas porque finalmente foi admitido.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mulheres lutadoras não tem lugar, elas voam

Algo Sobre Alguém

Verdades