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O Medo

 O medo é o sinal de algo novo ocupando o espaço, uma fronteira que se apresenta sem manual de instrução. Agir com coragem é caminhar junto do batimento acelerado, aceitando que o desconhecido é o único lugar onde a vida pode, de fato, se expandir. O mistério do amanhã exige o respeito do nosso receio, e esse mesmo receio é o que valida a importância do avanço interior.

Feiticeira da noite

Quando deixas a bruxa ir, ela parte levando um pouco de ti. Levanta sem fazer barulho e recolhe o que tocou nela, um gesto, uma memória, um fragmento de desejo, e desaparece na noite como quem conhece bem o caminho de volta para si mesma. É curioso: a bruxa sempre vai embora. Sempre deixa para trás um pedaço de terra onde, por um instante, acreditou poder fincar os pés. Um pequeno território onde quase construiu abrigo. Quase. Bruxas conhecem a palavra “quase” melhor do que ninguém. Porque a natureza delas é outra. Bruxas são solitárias e suficientes. Caminham sem escolta, atravessam o mundo com o próprio fogo nas mãos. Talvez por isso despertem tantos questionamentos em quem as encontra: a fuga daquilo que poderia ter sido, o eco das palavras que nunca chegaram a ser ditas, o silêncio pesado das possibilidades abandonadas. Mas existe uma beleza nisso. A bruxa solitária atrai como chama em noite escura. Encanta, perturba, provoca. Só que nunca foi mulher feita para ficar. Nunca foi. Mu...

Deixar Morrer

Não é a roupa mais bonita que vai me animar hoje. Nem as melhores palavras dariam a validação que eu pensei que precisava. Tem dias em que nada de fora encosta no que está acontecendo por dentro. Viver é isso: um processo lento de deixar morrer quem a gente foi ontem. Não tem glamour. Na verdade, cansa. De repente, tudo parece raso. Conversas, planos, promessas... O que antes importava perde o peso. Fica banal. E aí sobra o que arde. Sobra o que sangra. E sangrar não deveria ser fraqueza. Sangrar é humano. É sentir sem maquiagem, sem discurso bonito, sem tentar transformar caos em palco iluminado. Tem algo quase cruel nessa lucidez. Ela tira as camadas, arranca as distrações. Ainda assim, existe uma doçura ali, discreta e firme. A doçura de quem para de fugir de si mesma e entende que sentir profundamente ainda é estar viva.

Não é força que me falta

Aprendi a ficar de pé quando tudo em mim pedia chão. Aprendi cedo a organizar o que doía, a dar forma, nome e postura ao que ardia por dentro. Explicar sempre pareceu mais seguro do que sentir. Uso a mente como instrumento de contenção. Corto excessos, reduzo gestos, silencio impulsos. Enterro o que pulsa com elegância e lucidez, como se clareza bastasse. Funciona. Por um tempo. Depois o silêncio pesa. A dor não some, apenas aprende a caber. Caminha comigo, discreta, ocupando espaços que não toco. Quando me afasto do que sinto, chamo isso de maturidade. Cansei de dar murro em ponta de faca. Nada foi atravessado, apenas mantido à distância. Não estou fraca. Estou exausta de sustentar uma versão de mim que já saturou. Hoje não resolvo. Não interpreto. Não extraio sentido. Hoje deixo a ferida existir sem enquadramento, sem correção, sem urgência. E nesse gesto mínimo, quase imperceptível, algo começa a ceder. Não porque passou. Mas porque finalmente foi admitido.

Jardins

 Ela destruiu o próprio jardim e levou flores até ele. Não por obrigação, não por expectativa. Só porque cresceu e queria compartilhar o que aprendeu. Esperava atenção, cuidado, talvez um reflexo da própria coragem. Olhou pra si mesma e percebeu o vazio que ainda carregava. Nem tudo pode ser compartilhado. Algumas sementes só crescem em quem as planta. O que sufocava foi cortado. A luz entrou onde antes havia sombra. Raízes se firmaram após o temporal, firmes na própria força, sem esperar aplausos. Restaram reflexões silenciosas. Palavras não ditas. Partes de si que apodreceram antes de serem vistas. Caminha, entendendo que cada consequência nasce do que decidiu cultivar. Crescer sozinho também é sobreviver. Ele olhou pra própria vida e encontrou um quintal ralo. Talvez admirasse o jardim de longe, talvez sentisse algo que não sabia nomear. Nunca quis assumir a responsabilidade de cuidar. O jardim não floresceu pra ser notado. Floresceu porque precisava existir...

Reféns do amanhã

A ansiedade pelo futuro nos torna reféns do amanhã. Não do que existe, mas do que inventamos para suportar o vazio. Vivemos eternamente entorpecidos pela ideia de que amanhã tudo vai passar. Que algo vai se resolver. Que a dor vai cansar antes de nós. Essa é a distopia do milagre. Um mundo onde ninguém age, só aguarda. Onde a esperança não salva, apenas adia. E o tempo observa, impassível. Enquanto esperamos, a vida acontece. O agora cobra caro de quem o abandona. No fim, não é o futuro que nos prende. É a recusa de encarar o presente.

Preço

Nem tudo que se oferece é gesto. Às vezes é tentativa de acesso. Há quem confunda proximidade com troca, e ache que certas portas se abrem com vantagens discretas, favores bem colocados e gentilezas calculadas, mas há espaços que não respondem a esse tipo de chave. Algumas presenças não se movem por oferta. Não se inclinam por conveniência. Não se mantêm por interesse disfarçado de cuidado. Quando algo vem com expectativa embutida, deixa de ser simples. E o que nasce condicionado nunca chega a ser vínculo, apenas intenção esperando retorno. Aprendi a reconhecer a diferença entre aproximação e investimento. Entre estar junto e querer usufruir. Nem todo gesto é inocente, nem toda atenção é gratuita e nem toda resposta será concedida. Há coisas que só existem quando não precisam ser compradas. E há quem jamais entenda isso.